Uma Manhã de Amor

Ontem tive uma manhã de domingo bem diferente do usual. Geralmente aproveito o domingo para por o sono em dia, ou curtir uma praia, ou simplesmente ficar largado no sofá lendo o jornal. Mas ontem, depois de meses participando apenas na compra do material para um grupo de amigos que distribui café da manhã para nossos irmãos que vivem na rua, decidi acompanhá-los nessa jornada. Acordei às 5h30min, tomei um banho e fui para o ponto de encontro: a Casa Espírita Lar de Francisco, em Curicica. Lá, distribuímos os itens (pães, leite, café, kits de higiene, cobertores novos, roupas usadas e kits para bebês) entre os carros e iniciamos nossa caravana. A primeira parada foi sob o viaduto da Linha Amarela em Bonsucesso. Ali, conversamos com cerca de 20 ou 30 irmãos. Alguns já estavam acordados, outros fomos nós quem acordamos, sempre levando o café da manhã e palavras de carinho. Depois seguimos para o centro da cidade, passando por ruas como a Graça Aranha, México, proximidades do Aterro e terminamos o dia na Praça da Cruz Vermelha. Nem sei dizer quantos irmãos encontramos no caminho, mas foi muita gente. E adorei poder compartilhar de suas histórias por horas. Quão gratificante é poder dar um pouco de carinho e receber uma infinidade de amor. Sim, o que recebemos deles é muito maior do que o pequeno gesto que fazemos. Fizemos orações, cantamos, conversamos muito... São pessoas com histórias de vida e realidades muito distintas. Impressionante a força, a coragem e determinação desses pobres irmãos que não têm onde morar. Fiquei deveras emocionado com tudo que vi e vivi. E me surpreendi, pois esperava encontrar pessoas que não tivessem ambições, vontade de viver ou mesmo que trouxessem qualquer mensagem pra mim. Foi exatamente o oposto. As histórias que contaram, os sorrisos, tudo aquilo que vi e ouvi foram de enorme valor. Como aprendi com esses irmãos. E como é fácil poder aprender com eles. Estou tão encantado e feliz que quero e vou continuar participando desses encontros todos os meses.

Algumas das histórias que ouvi ainda estão na minha cabeça. Vou contar aqui, mas sem identificar os protagonistas.

·         Um rapaz de 29 anos, está na rua há 21, ou seja, desde que perdeu seus pais, aos 8 anos de idade. Ele é carioca, mas já morou em diversos estados do Nordeste e em todo o Sudeste. Ele conta que já fez de tudo, mas que nunca saiu da rua. Mas nos contou orgulhoso que esse é seu último mês nas calçadas, pois já está trabalhando e dia 5, quando receber seu salário, vai procurar um cantinho para morar. Estou torcendo mesmo para não encontrá-lo no próximo mês na rua.

·         Outro rapaz soltou uma questão no mínimo desconcertante: “Por que é mais fácil receber doação de quem nem nos conhece do que da própria família? Minha família não me Judá mais e só sabem me fazer cobranças. Sei que por muito tempo fiz coisas erradas, mas agora eu quero e estou mudando. Mas eles não querem me ajudar.” Fiquei pensando sobre isso. Por quê e inverto essa questão: por que às vezes é mais fácil ajudarmos alguém que nem conhecemos e muitas vezes deixamos de ajudar aqueles que são de nossa família? Por que quando ajudamos a desconhecidos não cobramos nada deles, mas quando ajudamos a quem conhecemos fazemos tanta cobrança? Devemos sim orientar quem está próximo para que sigam pelo melhor caminho, mas não devemos de forma alguma negar a ajuda, certo?

·         Um senhor nos pediu para lhe dar uma calça, pois está procurando emprego e nas entrevistas muitas vezes é barrado por estar vestindo bermudas. Infelizmente estávamos sem roupas quando o encontramos, mas vamos providenciar para o próximo encontro.

·         Um casal que vive sob o viaduto de Bonsucesso nos pediu para cantar para eles, para fazermos uma oração. E nos acompanharam com palmas e cantando junto. E a prece foi feita também em conjunto. Os dois vivem juntos na rua há muito tempo e têm uma alegria, um amor que muitas vezes não vemos em casais que compartilham um mesmo teto.

E por aí vai. Foram dezenas de histórias e muita emoção.

O que vi ali, em todos os casos, são pessoas fantásticas, que nos receberam super bem e que precisam, mais do que saciar sua fome e se aquecer com cobertas, de uma palavra amiga. E, em troca, nos dão muito. Sorrisos, histórias, verdades, tanta coisa. E podemos ter isso com tão pouco. Como eu queria que cada um dos meus amigos pudesse viver o que vivi ali. E isso só depende de nós mesmos. Procure ajudar a quem precisa e quem será ajudado será você.

Comentários

  1. Querido Amigo Fred, o simples bom dia que direcionamos com alegria, com amor nos olhos e de bom coração já nos traz todas as benesses que precisamos para alimentar nossos espíritos. Que comecemos em casa e levemos para os que não conhecemos. Sempre temos a aprender: que treinemos os nossos olhos de ver e ouvidos de ouvir. Beijos! Marcinha

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  2. Muito legal mesmo Fred esse "trabalho" que vc vem fazendo com seus amigos da Casa Espírita. Parabéns por mais essa iniciativa. Suas doações de espírito só te fazem ser uma pessoa mais iluminada.

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